Memórias de uma filha – Rio Center

Memórias de uma filha

A escritora inglesa Virginia Woolf, ao homenagear seu pai, nos ensina sobre a educação dos filhos e a saudade. Texto adaptado.

 

Na fase em que os filhos estavam crescendo, os grandes dias da vida do meu pai tinham acabado. Suas façanhas nos rios e nas montanhas tinham se passado antes de eles nascerem. Relíquias delas podiam ser encontradas pela sala — a taça de prata sobre a lareira do escritório, os enferrujados bordões de alpinista inclinados no canto contra a estante de livros.

 

Ele falaria, até o fim dos seus dias, dos grandes alpinistas e exploradores com uma mistura de admiração e inveja. Mas seus próprios dias de ação tinham acabado, e meu pai tinha de se contentar em perambular pelos vales da Suíça ou caminhar pelas charnecas da Cornualha.

 

Ele saía após o café da manhã, sozinho ou com alguma companhia, e voltava um pouco antes do jantar. Se a caminhada tivesse sido bem-sucedida, ele pegava o seu grande mapa e comemorava assinalando um novo atalho com uma caneta vermelha. Ele era capaz de caminhar a passos largos o dia todo sem falar mais do que uma ou duas palavras com quem o acompanhava.

 

O que mais divertia os filhos era sua habilidade com os dedos. Ele colocava uma folha de papel entre as lâminas de uma tesoura e dali tirava um elefante, um cavalo ou um macaco, e com todos os detalhes, tromba, orelhas e rabo delicadamente moldados. Também era capaz, quando pegava no lápis, de desenhar com perfeição um animal após o outro.

 

Também divertiam os filhos as histórias que ele contava sobre as suas aventuras nos Alpes. Os acidentes em aventuras assim, ele explicava, aconteciam apenas se as pessoas fossem muito tolas para desobedecer aos guias.

 

Quando, entregue aos seus pensamentos, ele rapidamente abria os olhos azuis e brilhantes e dava sua opinião, era difícil desconsiderá-la. Tratava-se de um hábito, especialmente quando a surdez tornou-o inconsciente de que sua opinião podia ser ouvida.

 

E quando, como é inevitável numa família grande, alguma visita ameaçava ficar não apenas para o chá, mas também para a ceia, meu pai expressava sua ansiedade. Primeiro, mexendo e remexendo uma certa mecha do cabelo; depois dizia, como quem não quer nada: “Por que ela não vai embora?”.

 

As imagens que ele traçava a respeito da idade avançada e de ter-se a falência decretada, de homens arruinados que tinham que sustentar famílias grandes em casas pequenas (ele era proprietário de uma casinha), podiam convencer as pessoas que se queixavam de suas frases contidas de que ele era capaz de exageros quando assim lhe convinha.

 

Mas a atitude pouco sensata era superficial, e logo desaparecia. Pegando o chapéu e chamando o cachorro e a filha, saía para caminhar pelos Kensington Gardens, onde havia caminhando quando garoto e onde ele e o irmão haviam reverenciado a jovem rainha Vitória, ao que ela havia retribuído com um ligeiro aceno.

 

Ele não era, nesse momento, nada assustador. Ele era muito simples, na verdade, e muito confiável no seu silêncio. Ele próprio não bebia, apenas fumava seu cachimbo, e nunca, nunca, que eu saiba, chegou a fumar charutos.

 

As relações entre pais e filhos têm hoje uma liberdade que teria sido impossível com meu pai. Ele esperava certo padrão de comportamento, inclusive de cerimônia, na vida familiar. Mas se liberdade significava o direito de ter os seus próprios pensamentos e seguir a sua própria vida, então ninguém respeitava a liberdade mais do que ele, que também a garantia aos filhos e às filhas.

 

Ele nunca impunha suas próprias visões ou alardeava seu próprio conhecimento. Naqueles últimos anos, tornando-se cada vez mais solitário e surdo, ele dizia que tinha sido “bom em muita coisa, mas exímio em nenhuma”. Mas tenha sido bom ou não na sua profissão, ele deixou uma boa impressão de si mesmo nos seus amigos.

 

O elogio que ele mais teria valorizado, pois, embora não fosse religioso, ninguém mais do que ele acreditava no valor das relações humanas, teria sido o que dele disse um dos seus amigos após a sua morte: ele era, disse o amigo, “o único homem digno de ter casado com a tua mãe”. E Lowell, outro amigo, dele disse: “Seu pai foi o mais amável dos homens”, e foi quem melhor descreveu a qualidade que o torna, após todos esses anos, inesquecível.

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