Bolhas de sabão – Rio Center

Bolhas de sabão

Newton Navarro (1928-1992), pintor, contista, cronista da cidade.

 

Do alto da varanda, a menina soltava ao vento bolhas de sabão. Um pequeno público, também de crianças, olhava atento o seu exercício matinal. A menina agitava a água ensaboada do pequeno caneco de louça e depois soprava o canudo. Num passe de mágica, o sopro se desfazia em pequenas bolhas que subiam ao vento.

— Me dá uma! — gritava a meninada.

— Me dá outra! Mais outra! Umazinha para mim! — e a garotinha estendia as mãos para o espaço. Mas a bolha subia celeremente. Os risos espoucavam. A menina mágica, superior, do alto do seu mirante, encantava os amigos.

Um acontecimento simples, comum, e, no entanto, misteriosamente tentador. A pureza do fato em si. O exercício lúdico com a riqueza perene que a infância represa em seus limites. E o simbolismo das bolhas. Fluidas, passageiras, levadas pelo vento na hora da manhã. O entusiasmo do pequeno público que a tudo assistia deslumbrado. A vida passando nas bolhas que a menina espalhava pelo tempo. A vida tocaiando aquelas crianças. O lobo mau na selva dos dias. E a menina, diante dos seus companheiros, sem que nada soubesse, alheia ao mundo voraz, enchendo a manhã com a sua mensagem, como a escrever no azul matinal uma advertência de que a vida passa, a breve vida, a passageira vida, rotina inconsequente…

 

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