Discurso sobre a felicidade – Rio Center

Discurso sobre a felicidade

A francesa Émilie du Châtelet, a Madame du Châtelet, que viveu em Paris em pleno século dezoito, ensina-nos alguns dos seus segredos sobre a felicidade. Texto adaptado.

 

É crença generalizada, e motivos não faltam para isso, que ser feliz é difícil. Infelizmente, só percebemos com clareza os caminhos da felicidade quando a idade e os entraves decorrentes dela criam obstáculos e já não há muito o que fazer. Meu primeiro conselho é: evitemos que se perca parte do nosso curto e precioso tempo de vida com coisas bobas e pequenos contratempos.

Digo e repito sempre que, para ser feliz, o primeiro passo é não pensar nas coisas tristes, nas pessoas que nos decepcionam, nas dificuldades da vida. O primeiro passo para ser feliz, portanto, é deixar tudo isso de lado e cultivar tão somente sensações e sentimentos agradáveis. Ora, eu bem sei que isso não é nada fácil, e confesso que muitas vezes não consegui. Mas é preciso se esforçar.

Até porque só vale a pena viver se for para viver bem, e, quanto mais cultivarmos bons pensamentos e bons sentimentos, mais bons sentimentos e bons pensamentos teremos, e então seremos mais e mais felizes. Pode até parecer óbvio o que digo, e até um pouco banal, mas a felicidade, embora tão difícil de alcançar e encontrar, só depende de nós, e é a coisa mais simples da vida, e também o que mais esperamos.

 

As paixões

É nosso dever colocar as nossas paixões a serviço da felicidade. Mas é preciso domá-las, para não deixar que nos dominem, que alterem o nosso humor, que ditem a nossa vida. Se quisermos ser realmente felizes, devemos evitar esses caprichos da nossa natureza.

Uma das paixões que devemos evitar veementemente é o excesso. Acredite, como todos nós nascemos saudáveis, não resta dúvida de que, se não estragássemos tudo por causa da gula, de noites insones, enfim, de excessos, viveríamos até a velhice. Mas não se censure por sua gulodice, pelas noites em claro e por tudo o mais, pois bem sabemos que são contínuas fontes de prazer. A sabedoria está em moderá-las.

Há outras pequenas recomendações, além dessas, que podem contribuir para a nossa felicidade. Chego ao terreno das decisões. Estar bem decidido quanto ao que se quer ser e fazer é também, saiba, uma condição sem a qual não existe felicidade.

Se não sabemos o que queremos, se não orientamos a nossa vida, terminamos nadando perpetuamente num mar de incertezas e acabamos por destruir pela manhã o que realizamos à noite. Dessa forma, passamos a vida cometendo tolices e tentando consertá-las, sempre nos culpando por tudo, num eterno mar de lamentações.

Essa sensação de culpa é uma das mais desagradáveis que podemos sentir. Afinal, é inútil constatarmos os nossos próprios erros e ficarmos ruminando e nos recriminando por eles. Saber evitá-la é um grande segredo.  Por isso, é preferível partir do ponto em que paramos e empregar toda a sagacidade do nosso espírito em encontrar meios de reparar esses erros.

Assim, um dos grandes segredos para a felicidade é moderar os desejos e amar e desfrutar ao máximo o que conquistamos, e jamais espichar o olho para os que nos parecem mais felizes.

 

Cabe à razão nos fazer felizes

Na infância, nossos sentidos se encarregam sozinhos de nos fazer felizes, e que sorte temos por isso! Mas o tempo passa e parece que vamos desaprendendo essa virtude aos poucos, à medida que começamos a dividi-la com a razão, a quem, na maturidade, entregamos completamente o governo da nossa vida e a nossa felicidade.

O que não é nada fácil, pois sempre temos que nos policiar para agir corretamente, não ter preconceitos, cultivar paixões e aprender a moderá-las, afastar as ideias tristes e jamais, jamais mesmo, permitir a nosso coração conservar um fiapo de afeto por alguém indiferente que deixou de nos amar.

Agora me despeço, dizendo-lhes, por experiência própria, que não há segredo. No fim das contas, a nossa felicidade depende apenas de nós mesmos. O essencial é que saibamos com clareza o que desejamos ser e escolhamos a estrada que queremos seguir na vida, para, assim, sem mágica, sermos plenamente felizes. E um último conselho: façamos isso enquanto é tempo.

 

Texto publicado na 12ª edição da Revista Rio Center.

Não há comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Comece a digitar e aperte Enter para buscar

Carrinho